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Quando perdemos um paciente, o que sentimos?

Sim. Nós médicos e profissionais da saúde também perdemos nossos pacientes. Sentimos o vazio frio e silencioso dos dias pós morte. As proporções são incomparáveis. A família sente a dor intensa, a síndrome do coração partido se faz presente por meses a fio, filhos sentem a sua moda, cônjuges diferentemente, mães, pais, irmãos, cada qual sente a partilha da sua maneira.


Hipocrisia a minha querer igualar tais sentimentos. Cada um a sua maneira. Uns calados, outros em gritos de desespero, como se a voz fosse alcançar o infinito. O luto se faz necessário e deve ser vivido. Vive-se por longos cinco anos ou até mais, uns a vida toda. Nada saudável vive-lo pela eternidade. E deve-se acreditar que nós médicos

também vivemos o luto ao perdermos os nossos pacientes. Fracassamos? Erramos? Não. Apenas perdemos. Devemos aceitar a morte. Que luz difícil de se ver brilhar. Já vivenciei muitas mortes, algumas calmas e leves outras tensas e desesperadoras.


As melhores, se é que existe escolha, são as mais calmas e tranquilas. Penso que falhei quando a morte de um paciente ocorre em meio a tensão. Filhos em gritos, sem entender e sem sequer pensar na possibilidade que existiria a morte. Apesar dela estar presente em todos os momentos. São pacientes graves, com comorbidades, e portadores de doenças ameaçadoras da vida. E no ir e vir da rotina das visitas, o paciente melhora, estabiliza, e os sintomas são controlados, enfim ele aceita melhor a doença. A família também aceita, aceita que você entre em suas vidas. Por um fio tênue a morte fica distante, esquecida, guardada. Ah entre sorrisos e conversas ela se vai, mas não era ela a protagonista? Sim, agora já está em segundo plano ou terceiro. Não falo sobre os pacientes em terminalidade ou em processo de morte e sim daqueles que conseguimos acompanhar em cuidados paliativos precocemente.


Erramos, possivelmente. Aprendemos com os erros. O que nos torna dignos de respeito é admitir o erro e não o fazer novamente. Portanto, neste pensar reconsidero a presença da morte sempre. Se choramos, se sorrimos, se sentimos dor ou raiva é por que estamos vivos, imersos na luz Divina que nos habita. Enquanto há respiração, há vida.


E a morte? Ela existe para todos, doentes ou não, sejam crianças ou velhos. Ela existe, calma ou súbita. Lenta ou rápida, ela existe. Não devemos esquece-la.


Reflitamos: o que nos faz melhor ao conviver com a possibilidade da morte? E para qual finalidade devemos praticar este exercício?

Quando pensamos na finitude o presente se faz presente. Damos importância às amizades e aos encontros. As palavras podem ser ouvidas com atenção entre pontos e vírgulas. Possibilitamos encontros dos olhares durante nossas conversas e permitimos que a tecnologia descanse por longos minutos. Observamos o dançar dos pássaros, a conversa das árvores e a perfeição da natureza. E o céu, azul, cinza, negro, com sol, chuva ou estrelas, sempre bonito. Tão infinito, tão misterioso. O que há por detrás das nuvens e para além do horizonte?


Está aí. Paramos por um, dois dias e logo voltamos no ritmo frenético da vida corrida, sem pausas, sem olhares, cabeças para baixo, pescoços em semiflexão em direção a luzes e sons, natureza esquecida, animais isolados da humanidade. Até quando? Até a próxima morte. Até o próximo adoecer.


E que nós médicos ou outros profissionais que lidam frequentemente com a morte possamos nunca a esquecer, mas considerar a vida como a caminhada até a transcendência.


¨Morrer é uma destas duas coisas: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte!¨ (Sócrates)



Dra. Tatiane Crepaldi dos Anjos

Médica - Nefrologista, Paliativista e Homeopata

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